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saúde mental jovens brasileiros

Um em cada cinco jovens brasileiros apresenta algum transtorno mental, aponta estudo

Um amplo estudo publicado em dia 04 de agosto de 2026 na revista científica The Lancet Regional Health – Americas apresenta um retrato preocupante da saúde mental de crianças, adolescentes e jovens adultos no Brasil.

De acordo com os pesquisadores, aproximadamente 15,6 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos apresentam critérios compatíveis com pelo menos um transtorno mental. Isso corresponde a 20,91% dessa população, ou seja, aproximadamente um em cada cinco jovens (Buchweitz et al., 2026).

O estudo utilizou dados do Global Burden of Disease Study 2023, uma das maiores iniciativas internacionais de monitoramento da saúde. Foram analisados a prevalência e o impacto dos transtornos mentais, dos transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas e das mortes por autolesão.

Os resultados mostram que os problemas de saúde mental começam cedo, tornam-se mais frequentes ao longo da adolescência e representam uma das principais causas de incapacidade entre os jovens brasileiros.

Transtornos mentais tornam-se mais frequentes com a idade

A prevalência estimada de transtornos mentais aumentou progressivamente entre a infância e o início da vida adulta:

Faixa etáriaPrevalência estimada
5 a 9 anos12,06%
10 a 14 anos18,81%
15 a 19 anos23,58%
20 a 24 anos24,27%
25 a 29 anos24,95%

Entre as crianças de 5 a 9 anos, aproximadamente uma em cada oito apresentava algum transtorno mental diagnosticável. Entre os brasileiros de 25 a 29 anos, essa proporção chegou a uma em cada quatro pessoas.

No total, a estimativa corresponde a 6,9 milhões de meninos e homens jovens e 8,7 milhões de meninas e mulheres jovens.

Os pesquisadores consideraram condições como transtornos de ansiedade e depressivos, TDAH, transtorno do espectro autista, transtorno bipolar, transtorno de conduta, transtornos alimentares, esquizofrenia, deficiência intelectual do desenvolvimento e outros transtornos mentais.

Ansiedade é a principal causa de incapacidade

Um dos resultados mais importantes do estudo está relacionado aos transtornos de ansiedade.

Em todas as faixas etárias analisadas, dos 5 aos 29 anos, a ansiedade apareceu como a principal causa de anos vividos com incapacidade entre as 375 condições de saúde avaliadas pelo Global Burden of Disease.

Isso significa que seu impacto funcional superou o de diferentes doenças físicas, lesões e demais transtornos mentais.

O resultado foi observado inclusive entre crianças de 5 a 9 anos. Desde 2010, os transtornos de ansiedade permanecem entre as cinco maiores causas de incapacidade não fatal nas faixas etárias estudadas.

Nos jovens adultos entre 20 e 29 anos, a elevada prevalência de ansiedade foi um dos principais fatores responsáveis por colocar o Brasil acima da estimativa mundial de transtornos mentais.

O que significa “viver com incapacidade”?

No contexto do estudo, incapacidade não significa necessariamente que a pessoa esteja totalmente impossibilitada de estudar, trabalhar ou realizar suas atividades.

O indicador denominado “anos vividos com incapacidade” procura calcular o impacto de uma condição sobre a saúde e o funcionamento da população. Ele considera diferentes níveis de gravidade e os prejuízos que podem aparecer na vida escolar, profissional, familiar e social.

Uma pessoa pode continuar estudando ou trabalhando e, ainda assim, experimentar limitações significativas provocadas por ansiedade, depressão ou outro transtorno mental.

Essas limitações podem envolver dificuldades de concentração, redução da energia, isolamento social, queda no desempenho, alterações do sono, prejuízos nos relacionamentos e dificuldade para administrar responsabilidades cotidianas.

Saúde mental responde por mais de um terço da incapacidade dos jovens

Em 2023, os transtornos mentais foram a principal fonte de anos vividos com incapacidade entre os brasileiros de 5 a 29 anos, totalizando aproximadamente 2,16 milhões de anos.

Os transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas acrescentaram cerca de 265,8 mil anos vividos com incapacidade.

Somadas, essas condições foram responsáveis por 36,52% de toda a incapacidade associada às doenças e lesões analisadas nessa população.

Portanto, mais de um terço do impacto não fatal das condições de saúde entre crianças, adolescentes e jovens adultos brasileiros está relacionado à saúde mental e ao uso problemático de substâncias.

Esse dado ajuda a dimensionar a importância do tema. Os transtornos mentais não constituem uma preocupação secundária ou restrita a uma pequena parcela da população. Eles representam um dos principais desafios atuais para a saúde pública brasileira.

Uso problemático de substâncias aumenta na adolescência

A prevalência dos transtornos relacionados ao consumo de álcool e outras drogas aumentou consideravelmente a partir da adolescência:

Faixa etáriaPrevalência estimada
10 a 14 anos0,22%
15 a 19 anos3,18%
20 a 24 anos5,82%
25 a 29 anos6,91%

No total, aproximadamente 2,5 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos apresentavam algum transtorno relacionado ao uso de substâncias. Desse grupo, 1,6 milhão eram do sexo masculino e 900 mil do sexo feminino.

Entre os jovens de 20 a 29 anos, os transtornos relacionados ao consumo de álcool e outras drogas foram mais prevalentes entre os homens.

Já os transtornos depressivos e alimentares apresentaram maior prevalência entre as mulheres a partir dos 10 anos. Nos grupos de 20 a 29 anos, a prevalência geral dos transtornos mentais também foi maior entre as mulheres.

Essas diferenças indicam a necessidade de estratégias de prevenção e atendimento sensíveis às características de cada grupo, sem transformar tendências estatísticas em estereótipos individuais.

Mais de 5 mil jovens morrem anualmente por autolesão

O dado mais grave do estudo diz respeito às mortes classificadas como decorrentes de autolesão.

Entre brasileiros de 10 a 29 anos, foram estimadas 5.402 mortes anuais:

  • 4.149 entre meninos e homens;
  • 1.253 entre meninas e mulheres.

Essas mortes corresponderam a aproximadamente 361,6 mil anos potenciais de vida perdidos.

A taxa de mortalidade aumentou acentuadamente conforme a idade:

Faixa etáriaMortes por 100 mil habitantes
10 a 14 anos1,24
15 a 19 anos7,78
20 a 24 anos12,37
25 a 29 anos13,43

A autolesão foi a oitava maior causa de anos de vida perdidos entre jovens de 10 a 14 anos. A partir dos 15 anos, passou a ocupar a terceira posição entre todas as causas de morte prematura.

Embora as taxas sejam maiores entre os homens, isso não significa que o sofrimento emocional seja menos frequente entre as mulheres. Diferenças na forma de buscar ajuda, expressar o sofrimento e utilizar métodos de maior ou menor letalidade podem influenciar esses números.

Os resultados reforçam que a prevenção precisa começar antes de uma crise grave. Isso envolve reconhecer sinais de sofrimento, facilitar o acesso ao cuidado e construir redes de apoio que incluam família, escola, serviços de saúde e comunidade.

O cuidado não deve começar apenas depois do diagnóstico

Uma das principais propostas apresentadas pelos autores é a adoção de uma perspectiva preventiva e baseada no desenvolvimento.

Os transtornos mentais nem sempre aparecem de forma repentina e completamente definida. Muitas vezes, sua evolução começa com sintomas inespecíficos, mudanças de comportamento ou dificuldades que ainda não preenchem todos os critérios para um diagnóstico.

Entre os sinais que podem merecer atenção estão:

  • mudanças persistentes de humor ou comportamento;
  • ansiedade intensa ou preocupação excessiva;
  • irritabilidade frequente;
  • isolamento social;
  • perda de interesse pelas atividades;
  • alterações importantes no sono ou no apetite;
  • queda significativa no desempenho escolar;
  • dificuldades crescentes para cumprir responsabilidades;
  • consumo problemático de álcool ou outras drogas;
  • comportamentos de risco;
  • falas recorrentes sobre morte, inutilidade ou ausência de futuro.

A presença isolada de um desses sinais não confirma um transtorno mental. É necessário considerar sua duração, intensidade, contexto e impacto no funcionamento.

Entretanto, esperar que a pessoa apresente um quadro grave para oferecer ajuda pode aumentar o risco de prejuízos escolares, profissionais, familiares e sociais.

Escolas podem ser importantes portas de entrada

Os pesquisadores defendem que as possibilidades de acesso ao cuidado precisam ir além dos serviços especializados de saúde mental.

As escolas ocupam uma posição estratégica porque mantêm contato frequente e longitudinal com crianças, adolescentes e suas famílias. Isso não significa transformar professores em psicólogos nem atribuir à escola a responsabilidade de diagnosticar e tratar transtornos mentais.

O papel da comunidade escolar pode envolver:

  • reconhecer mudanças importantes de comportamento;
  • realizar um primeiro acolhimento;
  • escutar sem julgamentos;
  • comunicar-se com a família;
  • orientar a busca por atendimento;
  • realizar encaminhamentos responsáveis;
  • acionar protocolos de proteção quando existir risco.

Também podem ser criados serviços comunitários de acesso facilitado, nos quais os próprios jovens consigam buscar orientação sem depender de processos complexos ou de um diagnóstico previamente estabelecido.

Esses espaços podem integrar saúde mental, saúde física e sexual, prevenção ao uso de substâncias e apoio relacionado à educação e ao trabalho.

O Brasil possui uma rede importante, mas enfrenta dificuldades

O Sistema Único de Saúde oferece uma base importante para a ampliação do cuidado em saúde mental.

A Rede de Atenção Psicossocial inclui atenção primária, agentes comunitários, Centros de Atenção Psicossocial, CAPS Infantojuvenis, serviços de manejo de crises e programas de reabilitação psicossocial.

Segundo os autores, essa rede pode ser considerada uma das maiores estratégias comunitárias de saúde mental implementadas fora dos países de alta renda.

Entretanto, ainda existem dificuldades relacionadas à coordenação entre os serviços, à disponibilidade de profissionais, ao acesso ao atendimento e à falta de diretrizes mais claras para algumas faixas etárias.

O estudo também chama atenção para a fragmentação das políticas públicas. Algumas políticas nacionais destinadas à infância e à juventude mencionam vacinação, gravidez precoce e prevenção ao uso de substâncias, mas não abordam de maneira suficientemente explícita os transtornos mentais.

Além de criar políticas, é preciso avaliar se elas possuem financiamento, cobertura, transparência e capacidade de produzir resultados concretos.

Os resultados são estimativas, não diagnósticos individuais

É importante compreender como esses números foram produzidos.

O estudo não avaliou diretamente os aproximadamente 75 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos. Os resultados são estimativas estatísticas produzidas pelo Global Burden of Disease a partir de diferentes fontes de informação.

Para estimar a prevalência dos transtornos mentais e relacionados ao uso de substâncias, foram utilizadas 66 fontes brasileiras que abrangiam a população de 5 a 29 anos. Os dados sobre mortalidade foram obtidos do Sistema de Informações sobre Mortalidade.

Os modelos procuram corrigir diferenças entre instrumentos, amostras e metodologias. Ainda assim, permanecem limitações importantes:

  • concentração de estudos em São Paulo e no Rio Grande do Sul;
  • pouca representação das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste;
  • falta de informações sobre raça e etnia;
  • poucos dados sobre indígenas, jovens em situação de rua e populações institucionalizadas;
  • ausência de dados nacionais para algumas condições;
  • utilização de diferentes instrumentos para identificar os transtornos;
  • combinação de informações fornecidas por jovens, pais e professores;
  • dificuldade de estimar autolesões não fatais;
  • ausência de sintomas subclínicos, que podem provocar prejuízos mesmo sem um diagnóstico completo.

Por isso, os percentuais não devem ser interpretados como números absolutos ou definitivos. As estimativas são apresentadas com intervalos de incerteza e dependem da qualidade das informações disponíveis.

Ao mesmo tempo, a falta de dados perfeitos não significa ausência do problema. Pelo contrário, algumas limitações podem fazer com que o impacto real esteja subestimado.

Não é preciso esperar por dados perfeitos para agir

Os resultados mostram que o sofrimento mental começa cedo, cresce ao longo da adolescência e pode acompanhar a pessoa durante a vida adulta.

Intervenções precoces podem reduzir prejuízos, evitar agravamentos e diminuir a necessidade de tratamentos mais complexos no futuro. Para isso, é necessário integrar saúde mental e saúde física, qualificar os serviços existentes e ampliar os espaços nos quais crianças, adolescentes e jovens possam pedir ajuda.

As políticas públicas também precisam considerar que a saúde mental é influenciada por fatores sociais mais amplos. Mudanças econômicas e tecnológicas, insegurança profissional, uso desregulado das redes sociais, violência, desigualdade, pandemia e eventos climáticos extremos podem afetar diretamente o desenvolvimento e o bem-estar dos jovens.

O estudo não indica que toda manifestação de tristeza, ansiedade ou dificuldade de adaptação deva ser transformada em diagnóstico. O alerta é outro: sintomas persistentes e prejuízos significativos não devem ser minimizados como preguiça, falta de disciplina, imaturidade ou “apenas uma fase”.

O Brasil já possui informações suficientes para reconhecer a dimensão do problema. O desafio agora é transformar esse conhecimento em prevenção, acesso ao cuidado e políticas capazes de proteger a saúde mental desde os primeiros anos de vida.

Referência

BUCHWEITZ, Claudia; CAYE, Arthur; PICCIN, Jader et al. Mental disorders and self-harm among Brazilian children, adolescents, and young adults: prevalence, disability, and mortality estimates from the Global Burden of Disease Study. The Lancet Regional Health – Americas, 2026, artigo 101583. DOI: 10.1016/j.lana.2026.101583.
https://www.thelancet.com/journals/lanam/article/PIIS2667-193X(26)00213-9/fulltext